Deixe o pobre idiota doar...

“Está nos lábios, está na lábia de quem há muito já não tem noção dos desvarios, dos vãos desvios...da estupidez da ostentação, em que olhos que não querem ver a sua própria condição...”

Este é um trecho de uma musica belíssima do Jorge Camargo, chamada “letra morta”. Ela representa muito do que se vive e prega hoje na igreja cristã ocidental. Eu poderia rasgar o verbo aqui e me lembrar dos meus velhos professores que se apoiavam no grego e no hebraico, mas não viviam o Deus da encarnação, ou dos muitos pastores que conheço estúpidos por ostentarem um rebanho que não é seu, e nunca será contado como pertencente a homem algum. Porém, quero me ater a tudo que acontece e está mídia sobre a Igreja Universal do Reino de Deus (iurd).
Eu costumo dizer que três coisas provam a burrice do brasileiro, e antes de dizê-las, vai aqui uma prévia defesa.
Não sou anti-nacionalista, pelo contrário, sou até xenófobo muitas vezes, mas me dói ver como nossa falta de instrução educativa, e nossa impercepção sincrética religiosa, causam estragos irreparáveis na sociedade brasileira. Se eu pudesse, e tivesse mais voz e vez, além apenas do malogrado voto democrático, eu talvez fosse até menos incisivo e mais imperialista.
Pois bem, vamos às três provas da...da...”pouca inteligência” tupiniquim (eufemismo):
1) caixa eletrônico – é gritante a dificuldade que as pessoas têm de operar uma máquina dessas. Parece que ao aparecer “Deposite o envelope no local indicado”, as pessoas lêem “Procure ajude para descobrir o buraco secreto de depósito”, ou então, ao invés de “confirmar transação” lê-se “chame desesperadamente pelo funcionário mais próximo”. Isso acontece do alto, altíssimo, assustador, número de analfabetos funcionais, gente que não consegue interpretar o que lê.
2) Referendo do desarmamento – parece que o brasileiro não entendeu o que era o referendo. Excluindo policiais, não conheço ninguém que planeje comprar uma arma, os que a possuem preferem escondê-la, por precaução, medo, ou por estarem cometendo o crime de porte ilegal. A burocracia para se comprar armas no país só não frustra os que dela precisam, e os colecionadores. A esmagadora maioria nunca sequer tocará numa arma de fogo. Então porque votar sim pelo direito, imbecil e inexeqüível, de se possuir uma arma? (não digo nem usar, porque são pouquíssimos os peritos nessa perigosa arte).
3) A IURD – ela é a prova mais cabal e repugnante de que o catolicismo medieval porco e corrupto existiu. Não fosse a venda de indulgências e a inquisição, a igreja dos papas podres, seria fichinha perto da organização do “macedão”. Doar para uma igreja que vende o “sopro do espírito”, o “pãozinho da vida”, unge lâmpadas com “o elemento misterioso”, e depois queima tudo isso na “fogueira santa de Israel”, é o mesmo que comprar perdão de pecado, ou até pior. É provar minha a limitação e o desespero.
A IURD segue a teologia da prosperidade, e seu líder segue a teologia do “poder supremo”, do “usurpar ser igual a um deus”.
No embate travado entre Rede Globo e IURD, o que está em jogo é muito mais do que apenas “guerra por audiência”, se assim fosse, até mesmo a bandeirantes seria alvo das achacos da Globo, pois o CQC e até o E-24 chegam a ameaçar a soberania das melhores novelas do mundo. A diferença ainda é muito grande, o que acontece que a Record (TV do macedão) se consolidou em 2º lugar, e promete fazer de tudo para buscar a liderança. Uma tarefa muito difícil, ouso dizer: utópica.
Todavia, a IURD apregoa aos quatro cantos do mundo ser vitima de perseguição religiosa, e seu líder um herói da fé. Arrego! Se o Edir Macedo é um herói da fé, Joseph Smith e Ellen G. White são a versão moderna de Áquila e Priscila (Rm 16:3), e o conservador Bento XVI a versão jovem e amorosa de Gaio.
Eu admiro o macedão, ele prega mal, não é simpático, é um ser desprovido de beleza e carisma, não vive fazendo milagres, mas tem um império sob suas ordens diuturnamente. Foi capaz de construir a versão atual do templo onde Jesus virou mesas e chicoteou vendedores, e ainda assim fazer nascer no seu povo uma sensação de aquela catedral da fé é verdadeiramente a casa de Deus. Sua inteligência supervaloriza suas ações, e as de suas empresas também, espalhou seu império pelo mundo, e ainda cativa milhares que seriam capazes de nunca mais ouvir o Galvão Bueno narrar um gol do Brasil, ou assistir um capítulo sequer de “Paraíso”, só porque seus bispos disseram que a Globo persegue os evangélicos (lê-se: IURD).
Desde que começaram as acusações do MPE-SP (Ministério Público de São Paulo), em momento algum macedão e sua trupe metralha, trataram de se defender, usaram sua mídia eletrônica, a 2ª colocada, para acusar. Numa clara demonstração de falta de argumentos. Se não posso me defender, o melhor é partir para o ataque, descarado, deslavado e despudorado. E lá se foi a rede record a atacar a rede globo, até a Ana Paula Padrão fez isso, que vexame. É feia essa guerra solitária, já que toda a imprensa nacional noticia as provas dos esquemas criminosos realizados com dinheiro doado pelos fiéis da IURD (como fez “veja” que publicou os números de audiência e de valores pagos na globo e na Record)
Porém, em tudo isso parece que a fé dos fieis cresceu ainda mais, não suficiente para abalar a liderança da globo, mas o bastante para dar sinais vivos de uma fé sincrética, promíscua e desvirtuada. Não importa a vontade de Deus, não importa o exemplo sofredor de Jesus, o que importa, como orou o macedão com seus papagaios de piratas em Israel, é “– (...) que não somos cachorrinhos para mendigar, somos filhos para determinar, pois Deus prometeu na bíblia a prosperidade, e É OBRIGADO A NOS DAR O QUE PEDIMOS”, meu Deus, quanta heresia.
Perto do bispo herói da fé, o Ap. Santiago, o badalado casal Hernandes , o Rodovalhobens, o Pai terranemtãonova dos apóstolos, e até o Ratzinger, me parecem simples aprendizes de feiticeiros, que no máximo herdaram propriedades religiosas a serem administradas estrategicamente.
O Macedo sim criou um império do chão, usando subterfúgios e teologias satânicas e putrefatas, ele sim merece uma atenção especial. Na verdade, dele eu não tenho raiva alguma, pelo contrário, ele é o meu Ronald Gibbs, o Robin Wood religioso às avessas das Américas; eu tenho contra o idiota que dá deliberadamente depois de ver e constatar o crime e o mal uso que fizeram da sua doação e ainda assim continua dando. É pior que mulher que apanha do marido, sara e depois apanha de novo, alguém vê, denuncia e o cidadão agressor vai preso, ela retira a queixa, chega em casa e apanha de novo. No caso da IURD, os membros são piores que essas mulheres, pois elas muitas vezes não tem condições de sobreviver sem o provedor da casa, deram azar (escolheram errado) aqueles que a sustentariam na “saúde e na doença”, já os membros da IURD possuem outros maridos, outros lugares que não baterão tanto assim neles, mas preferem ficar e apanhar, apanhar, apanhar, por isso repito: DEIXEM O IDIOTA DOAR.
Para terminar, coloco abaixo toda a música “Letra Morta” do Jorge Camargo, que bem poderia ser representada por toda essa cambada de bispos, apóstolos, super-pastores, gente em quem eu não confio, autoridades clericais que se acham acima das leis espirituais, usurpadores do cargo de Cristo:

“Está no livro, está no templo, mas não está no coração...
está no grego, está no hebraico, mas não se fez encarnação...
está nas formas, está nas fôrmas, mas Deus do céu como serão os dias que estão por vir debaixo de tanto opressão...
está letra, está na lupa, e lá se foi a compaixão...
está nos lábios, está na lábia de quem há muito já não tem noção dos desvarios, dos vãos desvios...da estupidez da ostentação, em que olhos que não querem ver a sua própria condição E lábia é falsa, e os lábios tremem, e a lupa aumenta, e letra mata, e a língua é pobre, e o livro fecha, e o templo é pedra

Comentários

dietrich disse…
Velho, muito bom. Surpreendente. Bem escrito, com boas doses de sarcasmo e ironia, o que é bom. Todos deveriam ler isso daqui... manda pro Macedão, hahahaha. Só não concordo com o "Deixe o idiota doar" e com a "piedade" com o "coitado" Macedão. Os "idiotas", infelizmente, são a maioria do nosso povo, que, iletratados, como você disse, são reféns de artimanhas do neopentecostalismo, como seus cultos emocionais-irracionais, as campanhas, a busca de prosperidade, determinismo e misticismo. Pobre povo. Refém na idade média. Refém na idade pós-moderna.