Quando quem deveria nos amar nos mata...

Talvez esse texto seja publicado somente no livro, e nunca no blog. Talvez seu conteúdo seja tão contundente e revelador que sua veiculação seria impublicável no “Crente Pensando”. Nesse texto quero rasgar o coração, como há muito tempo não faço. Quero abusar da sinceridade; e esmagar o bom senso que porventura existe em mim. Enfim, quero ser o eu de sempre. O eu falho.

Costumo dizer que a igreja é o único exercito que pisa em seus soldados feridos, além de não prepará-los adequadamente para a guerra, os abandona do front e ainda por cima se exime de toda a culpa ao dizer que se algo saiu errado foi problema meu (nosso), talvez tenha havido “falta de planejamento”.

Parafraseando Yancey, quando Cristo usou a família como base para algumas suas parábolas, principalmente para se referir ao reino de Deus entre nós, homens e mulheres, creio que Ele tinha em mente uma família normal. Na qual há amor e cuidado, onde o mais fraco, que conseqüentemente exige mais cuidado, não é deixado de lado por não conseguir acompanhar os outros. Pelo contrário, quando o membro mais fraco não pode ir, a família não vai, e altera e adéqua os planos em prol da parte mais necessitada.

Tomemos como exemplo o caso aqui de casa. Quando eu era menino, pequeno mesmo, houve uma vez que minha proteção paterna e materna, bem como meu bem estar dentro de casa, foi deixado de lado em prol do meu irmão. Meus pais se ausentaram por um bom tempo de casa, me deixando aos cuidados do vizinho, afim de terem uma maior dedicação ao lado do meu irmão que estava doente.

É bem verdade que até hoje minha família, inclusive eu (com orgulho e paixão calorosa), dedicamos mais atenção às necessidades do meu irmão do que às minhas, haja vista o grande de número de enfermidades e internações que ele sofreu. Foi ele quem mais dormiu em hospitais, foi ele quem mais se consultou com médicos de varias “espécies”, foi ele quem mais gastou com medicamentos, foi ele quem mais sofreu com o divórcio. Ou seja, ele demandava mais cuidado que eu.

Às vezes ficamos apenas os dois em casa, nossa mãe viaja e na maioria das vezes cabe a mim as tarefas culinárias da casa, e eu preparo a comida mais para ele, da mesma forma que minha mãe prepara a comida mais para nós do que para ela, eu prefiro agradar o paladar dele ao meu. Ele é a prioridade.

Hoje, somos dois homens solteiros que vivemos debaixo do mesmo teto, existem apenas resquícios desta fragilidade infantil do meu irmão, mas nós nos acostumamos a devotar mais atenção a um gemido dele. Sua fragilidade despertou em mim um sentimento fraterno de cuidado que culminou num jorro de amor eterno por ele. O que não era tão comum, até que eu tomasse consciência, mesmo que tardia, de que ele sofreu mais que eu.

Se na igreja fosse assim, eu engrossaria suas fileiras até hoje. Eu e outros milhares, com toda certeza. Mas não, dificilmente se vive família verdadeira dentro dos muros de uma igreja cristã.

Outro dia li a história daquele clérigo católico que viveu e morreu com tendências homossexuais, talvez se escondendo atrás da batina, mas que dedicou seus mais valiosos esforços de vida ao cuidado de pessoas com retardamento cerebral crônico. Gente que não conseguia reagir visivelmente a nenhum estímulo sensorial, tampouco demonstrar gratidão pelos serviços a eles prestados. Vivendo como que num regime vegetativo.

Deixando de lado a orientação sexual do dito cujo, o que me atrai neste caso é a devoção abnegada de um vocacionado ao cuidado do elo mais fraco da corrente social. Pessoas que não são passiveis de pena, mas que despertam em nós dúvidas como: “Porque Deus permitiu isso?”, ou “porque os pais não abortaram?”, ou ainda “não seria melhor a morte a este sofrimento?”, gente que nos coloca de frente com uma das mais polêmicas questões religiosas, a saber: a justiça de Deus (como diria O Pensador: se Deus é justo, então quem fez o julgamento?).

Esse cara foi um cristão que entendeu a abnegação que precisamos ter e viver.

Já eu, fui apenas mais uma vitima da igreja. Suas garras manchadas pelo gosto amargo da corrupção, sua aparência entorpecida pela picada da nojenta mosca azul do poder, e sua sede perene de gloria e riquezas fizeram e farão inúmeras outras vitimas.

Foi preciso que eu perdesse minha fé (conto melhor isso nesse outro post: http://crentepensando.blogspot.com/2009/01/engraado-como-algumas-coisas-acontecem.html), para que eu passasse a dar valor àquilo que realmente importa. Nada do que tive em mãos serviu para alegrar o coração evangelista de Deus, talvez apenas tenha feito dar risinhos de canto de boca, mas, nada além disso.

Evangelho nunca esteve em política denominacional, e o poder que gozei e desfrutei serviu para me matar.

Talvez pareça que estou me desculpando, ou transferindo a culpa de meus erros para alguém maior, neste caso a igreja, e talvez eu esteja fazendo isso mesmo. Mas, o faço com plena convicção de que, se não fosse por ela, ainda hoje meu coração seria um coração com um ardor missionário invejável.

Aos 19 anos quase larguei tudo para pregar o evangelho numa tribo qualquer, eu queria era ir onde havia necessidade. Desde os 12 anos eu anelava entrar num seminário para aprender como pregar, para sair pregando por ai. Mas,...nem tudo são flores em nossa vida.

Após algumas tentativas de ida ao seminário, ser barrado algumas vezes, ter meus sonhos martírico-missionários destroçados um após o outro, eu fui parar num seminário bíblico e confessional que me aprisionou, enjaulou minha alma. Entrei um quase hippie e saí um tradicional pastor batista. Sem sonhos, e crendo que denominação era plano de Deus para o mundo.

Graças a Deus que morri. Essa fé religiosa morreu. Nasceu a fé do amor. A fé no Deus da misericórdia, no Deus que me usa mesmo com meus pecados, porque consegue sondar a parte nobre do meu coração, mesmo que este esteja envolto numa trama horrenda de morte.

A igreja que me matou, é a mesma que celebra os milagres modernos. É a igreja que desenvolve estratégias para ganhar almas, para alcançar o mundo, mas se esquece de ganhar “os seus”, ao mesmo tempo que se busca recursos para evangelizar no “além-mar”, ela pisoteia e arremessa para fora aqueles que ameaçam sua confortável situação de poder.

Hoje eu vejo um fosso entre a igreja e muita gente que ousou questionar a hierarquia clerical de poder; ou questionar ações duvidosas de interesse coletivo. Há um fosso entre mim e minha antiga patroa (quem lê entenda). Há um fosso entre alguns amigos e a instituição que um dia eles questionaram.

Entendo que precise haver hierarquia numa instituição, religiosa ou não, mas quando dizemos e apregoamos seguir o Cristo, nossa hierarquia é feito numa escala de amor e serviço. Manda mais quem ama e serve mais, ou pelo menos deveria ser assim. Alguns atingem escalas absurdas de poder religioso que não permitem sequer serem tocados, para deles “não sair unção”. Outros não se contentam com os meros títulos humanos de poder e cunham títulos e status superiores aos do que andaram com Cristo, e até ao próprio Cristo.

Cristo não usurpou ser igual a Deus, mas tantos que o testemunham esquecem desse fato, e almejam a glória que o próprio Jesus recusou. Glória esta que confesso ter desejado um dia, mas que de uma forma asquerosa me foi mostrada nua e crua pelo Espírito, seguida pela dolorosa pergunta: É isto mesmo que você quer?

O mundo do poder religioso me foi ofertado, o vivenciei na carne por algum tempo, mas dele não tenho saudade. Minha oração de despedida foi: “Obrigado, Pai, por ter me dado o que eu queria aos 24 anos. Porque se eu tivesse tido isso aos 44, olharia para a vida construída com o objetivo de ter o que tenho e sentiria uma frustração capaz de trucidar minha fé para sempre. E perdão por um dia ter pedido poder denominacional. Dá-me a chance, agora, de viver o teu evangelho!”

Sai ferido de uma batalha que não era minha, aliás, de uma guerra que não deveria ter existido. Quando procurei os meus, aqueles que vestiam os mesmos uniformes que eu, que foram treinados no mesmo campo que eu, falavam minha língua, compartilhavam minha descendência, enfim os que eu cria serem meus irmãos, me olharam com tamanho asco que me senti um tubo de esgoto sujo.

Alguns tiveram a audácia de me acusar. Outros, a maioria, ignoraram minhas feridas dessa guerra, e ainda outros trataram de pisar por cima de mim. Houve também aqueles que me deram uma falsa ilusão de salvação, vinham ao meu encontro com a maca nas mãos, mas eram apenas suas próprias macas, salvar-se-iam a si mesmos apenas.

Precisei me arrastar sozinho para um lugar seguro.

Nesse trajeto encontrei muitos outros que faziam, feridos, o mesmo percurso. E o máximo que podíamos fazer um pelo outro era dizer: coragem, você consegue, ainda não acabou!

A dor e a desilusão fizeram com que eu chegasse a desejar o mesmo que Elias quando fugiu de Jezabel.

Mas, Deus é misericordioso, seu amor permitiu que eu voltasse para suas tendas. E teve inicio um longo processo de cura, agora retratado no meu primeiro livro.

Em fase final já, no livro eu esmiúço minha vida e minha crença, e espero não fazer contigo, que sofre nas trincheiras da igreja, o mesmo que fizeram comigo quando saí a combater por ela.

Que o Pai das Luzes me ilumine no evangelho do amor. E Que o livro seja benção em nossas vidas.

Amém.

Soli Deo Gloria!

Comentários

Itala disse…
"Graças a Deus que morri. Essa fé religiosa morreu. Nasceu a fé do amor. A fé no Deus da misericórdia, no Deus que me usa mesmo com meus pecados, porque consegue sondar a parte nobre do meu coração, mesmo que este esteja envolto numa trama horrenda de morte.
Dá-me a chance, agora, de viver o teu evangelho!"

êêê Menino abençoado. Testemunho vivo de que o Pai cuida dos seus filhos. Afinal, olha vc podendo ensinar, testemunhar, sendo usado pelo Senhor para mostrar que Cristo é mto mais do que 4 paredes e uma placa de uma igreja. \o/. Que o amor genuíno pelas almas, pelo evangelho do amor e da salvação, ultrapassam as tradições denominacionais.

Glorifico ao Pai por sua vida, e por permitir ter te conhecido e estar aprendendo contigo.

Que o Pai das Luzes te ilumine no evangelho do amor. E Que o livro seja benção em nossas vidas. [²]

;)
Luís disse…
Muito bom seu post...isso ai apesar de não seguirmos a mesma religião temos a mesma fé e ao meu ver isso é o que nos torna capaz de seguirmos adiante plantando sementes positivas e acreditando num mundo melhor...mesmo que ele seja um pouco ilusão e um pouco distante...seu livro vai bombar...eu quero ter e ler um exemplar...abç
César Augusto disse…
é por ai, acho que aos poucos vamos entrando novamente nos trilhos, acho que vivemos um tempo de mudanças, esperanças e principalmente busca pela "verdadeira verdade", aquela mesmo, aquela que liberta. Sejamos livres para amar e ser amado e assim entender o que é ser cristão. Abraço do seu brother.