Neognosticismo

“O Neognosticismo No Protestantismo Brasileiro”

O neo-gnosticismo emerge num ambiente plenamente adequado à tendência espiritualizante da sociedade atual. Muitas pessoas no nosso meio tem procurado redimensionar, em nossos dias, o seu lado religioso e místico, através da ressacralização do Ocidente. Mesmo numa sociedade secularizada, temos visto brotar um desencadeamento por uma nova experiência religiosa, com um cristianismo reinterpretado, ao modelo primitivo (G.12) as religiões orientais, feitiçarias, religiões animistas, zenbudismo, meditação transcendental, ioga, técnicas de psicologia freudianas, dando os grandes contornos do movimento que tem se denominado “New Age”. Mudou a roupagem, mas a velha heresia gnóstica brota em questão urgente a favor da religião com um desejo incomensurável de se encontrar e relacionar-se com o possível sagrado.

A igreja do século XXI liderada pelos megas-pastores, adotou uma mentalidade de “marketing” e “pragmatismo”. Ficando assim orgulhosa de ver que o seu produto, que é a experiência da fé, estabilizou lugar e conquistou espaço permanente no mercado. Sendo assim, o que importa é que pessoas se aproximem de Deus, pois quem irá se importar de que forma elas se aproximam e como estão se relacionando ?

A cristandade protestante brasileira, está passando a considerar a psicologia como parte central de tudo. Embora os teólogos liberais como Rudolf Bultmmann aplicando uma hermenêutica existencialistas conseguiram chegar lá antes. A “psicologia do pseudo-evangelho”, reduziu a salvação a uma auto-estima, o pecado de herança adâmica em um desajustamento, a igreja com sua cristandade pós-moderna se tornou um grupo terapêutico, e Jesus a um irmãozinho mais velho, levando assim a uma desconstrução da perícope.

A sub-cultura da cristandade atual inserida no “Zeitgeist”, se parece mais com os antigos gnósticos do que com cristãos. Temos uma assustadora crescente preocupação de muitos críticos tanto dentro quanto fora da igreja protestante do novo milênio.

O Brasil, está sob uma forte influência afro-ameríndia, tendo um espantoso crescimento de religiões profundamente esotéricas e mágicas. O protestantismo brasileiro tem sido influenciado e igualmente contribuído para a leitura mágica desta nova consciência religiosa. Existe o uso de certa expressões e posturas, chavões enigmáticos como “tá amarrado!, eu determino, tome posse da vitória, etc...”, entonação de voz poderosa e autoritária, se torna modelo e referencial de espiritualidade. O levantar das mãos, comportamentos ritualísticos quase que mágicos, orações configuradas, estilos litúrgicos, expressões teatralizadas e experiências diretas com o Espírito Santo, palavras proféticas, revelações particulares, são grandemente apreciadas na sub-cultura do protestantismo brasileiro. O que era para ser um culto se torna em sessão de alucinose coletiva. O princípio axiomático aqui estabelecido, é a ausência de equilíbrio nesses tipos de culto.

Em seu bom livro “A Igreja Eletrônica”, Hugo Assmann mostra algumas das linhas gnósticas no meio da comunidade protestante brasileira. Um desses adeptos ao neo- gnosticismo é o apresentador R. R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, dentro dos moldes deste estilo mágico de ser Igreja.

O teólogo H. Asmmann mostra que o missionário R. R. Soares tem sua teologia fundamentada em T. L. Osborn e Kenneth Hagin. O primeiro se consagrou por manuais de cura e exorcismos e faz uma leitura da pobreza de forma ideologizada e mágica. Já o segundo diz que Deus detesta a pobreza e ele mesmo criou condições para a prosperidade dos crentes. Hagin diz que, “quem não sobe na vida, é porque não se converteu e continua presa dos demônios”

Como podemos então interpretar a palavra do sábio rei Salomão?

“Mais digno de ser escolhido é o bom nome do que as muitas riquezas; e o favor é melhor do que a prata e o ouro. O rico e o pobre se encontram; quem os faz a ambos é o Senhor.” Pv.22.1-2

Asmmann faz ainda uma rica afirmação para contribuição neste tema ao mostrar outro programa tele-evangelístico brasileiro que está ligado profundamente com o mágico, tendo o titulo de “O despertar da fé”, da Igreja Universal do Reino de Deus, tendo como líder o Bispo Edir Macedo.

Hugo Asmmann ainda diz: “Existe um tema obsessivo desse programa é a espoliação dos demônios. Há algo novo na linguagem empregada: existe uma transferência direta aos demônios... Os demônios exploram, espoliam, oprimem, criam problemas de desemprego e enfermidades...”

Essa desenfreada busca pelas experiências espirituais como arrebatamentos, encontro com seres angelicais, revelações e visões tem solapado os templos evangélicos brasileiros. O exagero ao sobrenatural tem sido tão estapafúrdio que até os “pentecostais históricos” estão assustados.

O ex-pastor batista agora intitulado “Apóstolo Rene Terra Nova” tem causado a maior celeuma. Ele foi buscar em Bogotá aos pés do mestre neo-pentecostalista-gnóstisco “Apóstolo César Castelhanos”, a novidade dos “Encontros do G.12”. Implantou-a em Manaus por meio de seu “Ministério Internacional da Restauração”. Ventos rapidíssimos, soprando do Norte a Sul, espalharam o gedozismo na patria inteira. Tem também como aliada à pastora Valnice Milhomens, confessa do neopentecostalismo da terceira onda. Aderiu-se-lhe também a “Igreja Sara Nossa Terra” do então Bispo Robson Rodovalho.

Rene Terra Nova diz o seguinte na entrevista cedida a revista Geração 12:

A realidade da igreja evangélica no Brasil é legalista, irreflexiva, precisando de restauração. Sei que muitos conceitos que a igreja de Jesus mantém hoje, são ultrapassados e já caducaram, pois é um jeito antigo, arcaico e sem princípios bíblicos, apenas metodológicos. Nós sabemos que os tempos mudaram e a igreja tem que ter uma postura alternativa, (...) Não só vivemos hoje novos paradigmas (...) é a visão do coração de Deus, é um método ungido para levar a humanidade a salvação. A igreja celular de Jesus no modelo dos doze, está reescrevendo a história do cristianismo. (Fev. ano 2000 no 6 pág. 20 – Dez. ano 2000 no 5 pág. 10)
Ricardo Gondim conferencista em seu opúsculo intitulado “O Evangelho da Nova Era” afirma categoricamente:

“Uma religião extremamente mística e supersticiosa. Nela, lugares, objetos, frases pré elaboradas e pessoas tem valores sobrenaturais... A Igreja evangélica brasileira mostra-se muito vulnerável a falsas doutrinas... às vezes, infantilmente vê-se repetir heresias já duramente rejeitadas no passado... se algumas posições aqui expressas parecerem antipáticas ao pentecostalismo praticado no Brasil, é porque há um pentecostalismo popular brasileiro que vem sistematicamente ferindo as principais vertentes teológicas e históricas do cristianismo.”

Os assuntos mais discutidos na atualidade entre os evangélicos brasileiros são tão fúteis, que pela ausência de objetividade e relevância, jamais poderão desembocar numa ética cristã de valores duradouros. Eis alguns deles: “Arrebatamentos espirituais, os dentes de ouro, a palavra da fé e teologia da prosperidade”

Essa é a essência da espiritualidade, de acordo com cosmovisão atual. O grande discurso do evangelho da auto-estima é o processo de procurar remendar, encobrindo a culpa, o desespero, a vergonha, e o materialismo exacerbado. A espiritualidade oferece a auto-recuperação e a auto-ajuda ao invés de arrependimento e confissão de pecados e a total dependência de Deus para obter a completa redenção. Na verdade o que vale é o “aqui e agora!”

Esse evangelho, juntamente com os seus adeptos querem encontrar “o espiritual”, e não querem encontrar o Deus pessoal que sempre está lá, e sabe como realmente somos e certamente nos julgará. Sendo assim, optamos pelo “sagrado” em vez de um encontro com o próprio Deus. O sagrado é incerto, aberto, livre, e ilimitado. Deus é uma pessoa individual. E é Ele (Deus) o que nos considerada responsáveis pelos nossos pecados.

Posso concluir que o cristianismo brasileiro se tornou a incubadora do paganismo reavivado. Existe por trás da surpreendente diversidade da cultura pró-escolha, materialismo cristão, evangelho de manifestações, religião de sinais, estereotipo e espiritualidade, formalidade e forma, encontra-se uma gama de espiritualidade pagã coerente assumindo o controle absoluto e intolerante a qualquer verdade que não seja a sua. Dentro desta perspectiva do “evangelho de auto-estima, e cristianismo pós-moderno”, não existe espaço para o Deus da Bíblia e a sua verdade. Pois o fiel tem poder em manipular o agir de Deus à sua própria vontade.

O autor Haroldo Evangelista Dos Santos é paulistano, casado, exerce ministério como Evangelista, é também estudante do 4o ano de Teologia no Seminário Teológico Batista D’Oeste do Brasil, e atualmente é membro da Igreja Batista do Jardim Jacy.


Obras Consultadas:

1. A Igreja Eletrônica, Hugo Assmann, Petrópolis, Vozes, 1986.
2. O Evangelho da Nova Era, Ricardo Gondim, São Paulo, Abba Press, 1993.
3. Supercrentes, Paulo Romeiro, São Paulo, Editora Mundo Cristão, 1993.
4. Revistas Geração 12. Exemplares 5 e 6 de Fevereiro e Dezembro de 2000.

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